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Conflito

existe em mim

um conflito que me espanta

a cigarra trabalha

a formiga canta

Paisagem

a galha de espatódeas florida

sobre o telhado daquela palhoça

é a rosa enfeitando os cabelos

da moça bonita da roça

Poética II

tudo bem o verso é torto

é feio e tem defeito

gol roubado ou de pênalti

vale gol do mesmo jeito

Devaneios

a moça sentada no tempo

a devaneios entregue

muito além o que deseja

muito aquém o que consegue

Desdisse

não escrevo alegria

nem receito felicidade

se num conluio

palavras procuram formas

de dizer o que eu não disse

Pouco importa

somente a tristeza existe

e espreita atrás da porta

Crime encomendado

passa um bando de jagunços

armados de moto-serras

em direção à mata indefesa

mais tarde ouve-se à distância

a dor cortante das lâminas

e o grito dos troncos vencidos

Dois versos

devagar escrevo a tristeza

ela não tem pressa

Saudades de casa

vejo o tempo e a distância

arrancarem-me do chão

feito praga meio à cana

e expõem minhas raízes

a sangrar terra goiana

sol se põe sobre o cerrado

um canto rezado no terço

e assisto a minhas folhas

murcharem sobre meu berço

Resíduo

à minha saudosa filha Carolina

do sabor me tiraram o doce

da ternura me apagaram o olhar

do carinho me arrancaram o calor

da alegria me levaram o motivo

a parte que dói deixaram comigo

Ainda as pipas

para brincar com as crianças no céu

as pipas tentam puxá-las pela linha

Timidez

a tentativa de conquista

se transformou em fiasco

mãos perdidas nos bolsos

mãos voando no espaço

mãos suando nos dedos

mãos sobrando nos braços

Preguiça

fazia frio chovia fino

e já que era domingo

o dia ficou dormindo

Bougainvilles

bougainvilles plantei no jardim

mudas de mesma semente

uma cresceu quase branca

outra delas amarelada

uma se tornou mais escura

outra vingou desbotada

uma se abriu meio cinza

outra vermelho bem forte

uma tingiu rosa claro

outra vestiu rosa choque

regadas no mesmo carinho

mesmo amor contínuo e presente

cresceram como crescem os filhos

tão iguais e diferentes

Crepúsculo

poeta me encontrei tarde

descrevo o pôr do sol

e desconheço o nascente

canto o som do crepúsculo

sem o contraste da alvorada

carente de referências

perdi no tempo meu espaço

e me dei conta que passo

sem ver a brisa da manhã

sem ter juízo formado

nasci filho do ontem

o meu presente é passado

 

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..."Salvino Pires Sobrinho traz à luz seu segundo “rebento”: Quatro Estações, nascido do moto contínuo da delicadeza de quem domina com consciência e sensibilidade literária, a leveza de versos que mantêm o viés caleidoscópico de Perfumes"...
Imaculada Conceição Reis Vasconcelos

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